À
medida que o tempo passou, eu tentei me adaptar. Não saí correndo desesperada.
Não precisei de colo. Enrijeci. Criei uma forte armadura. Deixei de lado
picuinhas e admito ter adotado outras. Livrei-me do ciúme, livrei-me da alma
penada que carregava.
Pode
parecer muito drama da minha parte. Posso ser humana, não? Temo, às vezes em
ser eu mesma. Temo. Joelhos fracos. Cabeça fraca. Temo. Contudo, não deixo isso
me abater. Muito pelo contrário. Danem-se rótulos, cenários perfeitos e
roteiros prontos. A caneta já está na minha mão. Escrevo eu mesma meu roteiro
ideal. Serei feliz ou não, qual a diferença? Nenhum corretivo disponível para
apagar ou corrigir. Se o leite derramou, voilà! Não há do que chorar.
Infelizmente,
nesta narrativa sem coerência, jogo-te verdades feias, contudo prefira-as. Quem
sabe, possa pintá-las um dia? Faça-as bela, como um dia a rosa fora. Como um
dia você fora.
Tão
bela e tão vazia. Um grande jarro de vidro. Um jarro rachado. Coração
despedaçado. Acolhi tão maternalmente. Quisera eu ser indiferente. Bati palmas.
Reguei. Conversei. Ouvi. Principalmente ouvi.
Rosa
mal acostumada. Entretanto, eu nada via. Era cega de visão nublada. Nada queria
ver. Estava deslumbrada. Quisera eu dar de ombros.
Ô
Rosa mal amada, que culpa eu tenho se perdeste o rumo? Que culpa eu tenho se
preferi me afastar? Rosa, Rosa. Você colhe o que planta, nos dizem.
Como
queria ajudar-te a ser uma roseira. Não ligaria para os espinhos, estes
indecifráveis vértices. Nunca os enxerguei, naturalmente.
Rosa,
eu sinto muito. Não posso suportar. Comprei-me lentes novas, na verdade meio
gastas. Enxergo de verdade. Cores nítidas de arder os olhos.
Seu
encanto machuca. Sinto muito novamente. Agora eu enxergo. Mal e mal, até que
bem. Deixo-te claro no escuro: cansei. Difícil de suportar jarro vazio
quebrado. Duro deixar uma rosa mal agradecida te furar os dedos. Houve sangue e
dor.
Não
me chame de palavras sujas, este vocabulário te pertence. Entretanto, sua cor
empalideceu. Seu mundo e eu não pertencemos. Rosa, o que é para ti amizade? Se
não um caminho de dois lados? Uma rua de mão inglesa? Rosa, tu sabes
compreender?
Não
fui paga para cuidar de ti e apenas. Quisera eu ter pedido salário. Quantas
sessões sem hora marcada? Grande patética eu fui.
Trocaste
bens preciosos por temporários. Trocaste vida por morte. Ó Rosa desqualificada!
Mudaste tua alma. Mudaste teu dicionário.
Digo-te
sincera, vá-te. Mas, vá-te...
Rosa,
meu adeus fora dado. Meu tempo agora é curto. Suas escolhas foram feitas. Não
venha reclamar de mim. Perdeste teu rumo. Perdeste tua alma. A tudo assisti.
Rosa, Rosa despedaçada, leve consigo seus estragos. Preciso cuidar do meu
canteiro de ouro. Tenho o que preservar.
Um
dia quem sabe, voltes. Um dia de verão, quem sabe, tu desças do patamar que te
encontras. Não eis melhor que ninguém, pelo contrário Rosa. Porém, eu
preferiria ter alguém. Se teu nariz alcança o céu, te digo basta.
Não
me culpe, por ter te abandonado. Escolhi a mim, invés de a ti.