sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Rosa


                À medida que o tempo passou, eu tentei me adaptar. Não saí correndo desesperada. Não precisei de colo. Enrijeci. Criei uma forte armadura. Deixei de lado picuinhas e admito ter adotado outras. Livrei-me do ciúme, livrei-me da alma penada que carregava.
                Pode parecer muito drama da minha parte. Posso ser humana, não? Temo, às vezes em ser eu mesma. Temo. Joelhos fracos. Cabeça fraca. Temo. Contudo, não deixo isso me abater. Muito pelo contrário. Danem-se rótulos, cenários perfeitos e roteiros prontos. A caneta já está na minha mão. Escrevo eu mesma meu roteiro ideal. Serei feliz ou não, qual a diferença? Nenhum corretivo disponível para apagar ou corrigir. Se o leite derramou, voilà! Não há do que chorar.
                Infelizmente, nesta narrativa sem coerência, jogo-te verdades feias, contudo prefira-as. Quem sabe, possa pintá-las um dia? Faça-as bela, como um dia a rosa fora. Como um dia você fora.
                Tão bela e tão vazia. Um grande jarro de vidro. Um jarro rachado. Coração despedaçado. Acolhi tão maternalmente. Quisera eu ser indiferente. Bati palmas. Reguei. Conversei. Ouvi. Principalmente ouvi.
                Rosa mal acostumada. Entretanto, eu nada via. Era cega de visão nublada. Nada queria ver. Estava deslumbrada. Quisera eu dar de ombros.
                Ô Rosa mal amada, que culpa eu tenho se perdeste o rumo? Que culpa eu tenho se preferi me afastar? Rosa, Rosa. Você colhe o que planta, nos dizem.
                Como queria ajudar-te a ser uma roseira. Não ligaria para os espinhos, estes indecifráveis vértices. Nunca os enxerguei, naturalmente.
                Rosa, eu sinto muito. Não posso suportar. Comprei-me lentes novas, na verdade meio gastas. Enxergo de verdade. Cores nítidas de arder os olhos.
                Seu encanto machuca. Sinto muito novamente. Agora eu enxergo. Mal e mal, até que bem. Deixo-te claro no escuro: cansei. Difícil de suportar jarro vazio quebrado. Duro deixar uma rosa mal agradecida te furar os dedos. Houve sangue e dor.
                Não me chame de palavras sujas, este vocabulário te pertence. Entretanto, sua cor empalideceu. Seu mundo e eu não pertencemos. Rosa, o que é para ti amizade? Se não um caminho de dois lados? Uma rua de mão inglesa? Rosa, tu sabes compreender?
                Não fui paga para cuidar de ti e apenas. Quisera eu ter pedido salário. Quantas sessões sem hora marcada? Grande patética eu fui.
                Trocaste bens preciosos por temporários. Trocaste vida por morte. Ó Rosa desqualificada! Mudaste tua alma. Mudaste teu dicionário.
                Digo-te sincera, vá-te. Mas, vá-te...
                Rosa, meu adeus fora dado. Meu tempo agora é curto. Suas escolhas foram feitas. Não venha reclamar de mim. Perdeste teu rumo. Perdeste tua alma. A tudo assisti. Rosa, Rosa despedaçada, leve consigo seus estragos. Preciso cuidar do meu canteiro de ouro. Tenho o que preservar.
                Um dia quem sabe, voltes. Um dia de verão, quem sabe, tu desças do patamar que te encontras. Não eis melhor que ninguém, pelo contrário Rosa. Porém, eu preferiria ter alguém. Se teu nariz alcança o céu, te digo basta.
                Não me culpe, por ter te abandonado. Escolhi a mim, invés de a ti. 


               

                

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