sábado, 9 de junho de 2012

Irmão de alma


Ele me recebeu usando cachecol preto. Seus olhos estavam ainda mais verdes. Como se fosse possível. Sua barba moldurava seu rosto. Algo ali estava escondido. Algo. Havia interrogações que brilhavam, entretanto eu não sabia como ajudá-lo. Não sabia respondê-las.
O ambiente era reconfortante. Os discos na parede da sala de jantar deixava o apartamento mais original.
De braços cruzados ele me ouvia tagarelar. Tagarelava demasiadamente, mesmo tendo passado o dia de cama. Ele analisava-me calculadamente. Passava a mão pelo queixo, de onde brotava pelos rebeldes, da barba por fazer. Ele tinha a outra mão no bolso.
Eu estava sentada em um banco alto de madeira, o qual estava bambo e frágil. Ele provocava:
- Vais cair! – abrindo os olhos com força, como se estivesse dando ênfase.
- Não vou. – eu respondia contrariando.
Era muito fácil passar horas com ele. Era muito fácil acabar rindo por nada muito concreto. Era fácil o ver e sorrir involuntariamente. Ele ria de minhas tempestades em copo da água. Eu ria do jeito que ele dançava. Principalmente quando bebia mais do que o necessário. Riamos.
Apesar de ter um belo sorriso, seus olhos verdes, injetados e curiosos guardavam pensamentos diversos, aleatórios, incomodados. Talvez, deprimidos. Nada podia consolá-lo. Sentia-me impotente, uma vez ou outra.
Seu jeito de lidar com tudo, lhe era característico. Seu jeito era seu e apenas.
Era muito fácil conviver com ele, pelo menos eu achava. Contudo, o que sou eu, se não apenas uma amiga de passagem? Sempre a correr?
Havia mais do que amizade, porém havia menos, bem menos do que paixão. Havia cumplicidade. Havia uma conexão que às vezes, eu me perguntava como era possível. Mas, certas perguntas não possuem respostas.
Era bom ouvir sua voz. Espero que ela ainda soe por esses ares, rádios, televisão. Há muito para ser escrito. Há muito.
Lembro-me de como nos conhecemos, eu dizia para ele ter cuidado. Da ultima vez que nós vimos, ele me disse o mesmo.

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