Ele me recebeu usando cachecol
preto. Seus olhos estavam ainda mais verdes. Como se fosse possível. Sua barba
moldurava seu rosto. Algo ali estava escondido. Algo. Havia interrogações que
brilhavam, entretanto eu não sabia como ajudá-lo. Não sabia respondê-las.
O ambiente era reconfortante. Os
discos na parede da sala de jantar deixava o apartamento mais original.
De braços cruzados ele me
ouvia tagarelar. Tagarelava demasiadamente, mesmo tendo passado o dia de cama. Ele
analisava-me calculadamente. Passava a mão pelo queixo, de onde brotava pelos rebeldes,
da barba por fazer. Ele tinha a outra mão no bolso.
Eu estava sentada em um banco
alto de madeira, o qual estava bambo e frágil. Ele provocava:
- Vais cair! – abrindo os
olhos com força, como se estivesse dando ênfase.
- Não vou. – eu respondia
contrariando.
Era muito fácil passar horas
com ele. Era muito fácil acabar rindo por nada muito concreto. Era fácil o ver
e sorrir involuntariamente. Ele ria de minhas tempestades em copo da água. Eu ria
do jeito que ele dançava. Principalmente quando bebia mais do que o necessário.
Riamos.
Apesar de ter um belo sorriso,
seus olhos verdes, injetados e curiosos guardavam pensamentos diversos,
aleatórios, incomodados. Talvez, deprimidos. Nada podia consolá-lo. Sentia-me
impotente, uma vez ou outra.
Seu jeito de lidar com tudo,
lhe era característico. Seu jeito era seu e apenas.
Era muito fácil conviver com
ele, pelo menos eu achava. Contudo, o que sou eu, se não apenas uma amiga de
passagem? Sempre a correr?
Havia mais do que amizade,
porém havia menos, bem menos do que paixão. Havia cumplicidade. Havia uma conexão
que às vezes, eu me perguntava como era possível. Mas, certas perguntas não possuem
respostas.
Era bom ouvir sua voz. Espero que
ela ainda soe por esses ares, rádios, televisão. Há muito para ser escrito. Há muito.
Lembro-me de como nos
conhecemos, eu dizia para ele ter cuidado. Da ultima vez que nós vimos, ele me
disse o mesmo.
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