quarta-feira, 18 de julho de 2012

Por trás de lentes de contato
Havia muito não contado
Por trás da máscara
Deveria haver mais que o nada

Perdida, indecifrável
Dissimulada, insaciável

Queria poder contar novidades
Conto porque quero
Queria contar mentiras
Para retirar-te de conversas alheias de certos

Escolhas, apenas escolhas
Caminhos, sem rumo
Sem rumo ou fascínio

Telepatia


Por trás da janela entreaberta, por trás da parede vermelha descascada, por trás de cortinas mal lavadas, ela se escondia. Ela desejava poder sair, contudo tinha medo das verdades. Já tão acostumada a mentiras, bem ou mal contadas.
Nunca trocava de roupa. Nunca sorria. Parecia carregar um fardo em suas costas magras. Parecia machucada, sofrida. Com dor, relutante em fazer um barulho que a entregasse.
Eu não ousaria me aproximar. Talvez, porque quisesse ajudá-la e não aceitaria um breve não em resposta. Ela giraria seu corpo curvado, andaria para trás e balançaria a cabeça em negativa. Ela se recusaria ser tocada, se recusaria ir embora. Ela não contaria nada.
Havia algum segredo. Havia um pesadelo? Pobre garota magrela. Triste possível fim. Quisera eu pegar na mão dela e dizer: esqueça. Ela me responderia com os olhos. Com a alma. E de alguma forma, eu saberia a resposta: “isso é importante demais para ser colocado de lado”.

Borracha suja

Uma guinada fora dada
Nenhuma ré
Não há espelho retrovisor, tampouco
Olhemos para a frente, segue
A estrada segue

Asfalto, chão batido
Lama ou paralelipípedo
Segue

Estamos a seguir
Sem correr contra o tempo

De repente, sou corajosa
Por segundos ou mais
Decidida em escrever
Mesmo que seja de lápis
Mesmo que seja Mont Blanc

Uma meta brilha ao fundo
Os rótulos que se danem
Segue

Bato palmas
Relutante em acreditar em mim
Relutante em aceitar fatos

A estrada segue
Vazia
O silêncio segue
Nos domina

Cruel maneira de ser otimista
Estar sozinha
Refletindo sobre erros, confusões

A estrada segue
Meu caderno se abre
A caneta trava
A folha se rasga

Complexividade
Esta tão oblíqua arte

Alguém para me salvar?
Que me resgatem
Melhor, não perca tempo
Me apague 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Mente calada, mãos atadas


Lembro-me como se fosse ontem. Lembro-me, pois posso enxergar a hora que quiser. Eu posso escolher na prateleira de memórias, como se escolhesse um filme em uma longa lista de nomes. Porém, um filme dramático, melhor de terror. Um filme que eu não deveria ter assistido. Quer-se sonhar sobre. Entretanto, muitos dos meus pesadelos são frutos dele.
A lembrança é fria, cruel e insaciável. Nunca se cansa em aparecer quando não a desejo. Quando não a quero. Maldito seja o belo dia que entrou para minha vida a pior cena.
Tudo gira em torno do dia. Dia que deveria ser o melhor da minha vida, dia que deveria se encaixar como qualquer um em meu calendário. Contudo, é um dia que se quebrou em muitos pedaços de quebra-cabeça e cada pedaço, cada peça vive me atormentando diariamente. Eu vivo um pesadelo. Será que vivo?
(...)

domingo, 15 de julho de 2012

Conto de contadores de história


Ele amava escrever. Escrevia mesmo quando não deveria. Quando deveria, por exemplo, estudar. Quando devia publicar seus textos. Porém, não. E para quê? Escrevia para si, ao contrario de mim, pseudo-escritora. Necessito de opiniões de terceiros para seguir feliz.
Ele tinha um amplo e muitas vezes ultrapassado vocabulário, assim como seu estilo de vida peculiar. Tinha mania de muitas coisas. Andava sempre usando tons pastel. Levando consigo uma caderneta, uma caneta. Um chapéu panamá.
Ninguém o compreendia. Pergunto-me se ele sabia se compreender, acredito que não. Ninguém se compreende, não por completo. Somos seres humanos incapazes de saber de si, mas muito bem condicionados de falar e conhecer tudo sobre os outros. Triste fim.
Não se importava em andar sozinho pelos corredores, não se importava de ser sincero. Sabia que reclamavam de seu jeito, porém não tinha tempo para se importar. Estaria muito ocupado escrevendo algum poema indecifrável para mentes pequenas.
Bem vindos ao mundo de seguidores literários.
Havia seus três jeitos, havia muita coisa que jamais fora escrita. Havia amor. Havia pessimismo. Havia decepção. Havia muito. E simultaneamente pouco. Seu coração partido ou não, não sei dizer, estava à procura de calmaria. De alguém.
Que ele ache a então dama que tanto procure. Que ele consiga a levar para o sul da França. Que seja verão o ano todo. Que tenha flores na primavera. Que anoiteça sem que ninguém parta em um carro importado, com outro alguém. 

Inverno


Acho que o frio congelou minha vida. Acredito que com seus ventos cortantes que queimam meu nariz, o inverno só queira me machucar ou ensinar uma lição. Uma lição dessas baratas, porém ainda desconhecida.
Vago pela casa. De quarto em quarto. Indecisa por demais. Nada me aconchega, bom, nada por completo. Parece-me que o inverno só quer me confundir. Canso-me. Quatro longos meses.
O frio dói em meus ossos. Pensamentos em formas de cubo de gelo. Abro a torneira para deixar a água limpar vestígios de insônia, a água fere. Mesmo sem ter a intenção. A água perfura meu rosto já tão sensível.
Sento-me e trato de me distrair lendo algum romance frívolo o bastante para me fazer sorrir e sonhar e não chorar e refletir. De vez em quando a inutilidade nos alimenta por incrível que pareça. Ela nos abstrai para um cenário perfeito.
Por fim, gasto meus últimos minutos escrevendo. Minha mão dói. A caneta trava. A caneta é pesada. Pelo menos eu escrevo. Faço de minhas palavras algo mais do que uma bagunça aleatória, é uma bagunça organizada. Ao meu modo, naturalmente.
Já é de noite. Novamente. Já é frio o suficiente para eu sequer respirar normalmente. Minha letra já não sai desenhada, é um rabisco rápido. Rabisco cruel. Perco a forma, perco o fio da meada. Mera escrita banalizada. Mero texto sem final concretizado.
De qualquer forma... Bom, tanto faz. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A história da menina frívola


Ela usava qualquer tipo de roupa que levasse um rótulo famoso. Desejava um mundo distante, uma realidade inexistente, livre de obstáculos, livre de empecilhos. Um lugar chamado utopia, uma utopia que infelizmente não pertence a ninguém. Somos humanos, não?
A música tocaria em sua vida para todo o sempre e nada está errado nisso, porém para todo o sempre a mesma batida? A batida incansável. Mudaria o espaço, as pessoas, a letra, mas, a batida seguiria sempre a mesma. Sempre e sempre. Tic-toc-toc-tic.
Grandes merdas! Realmente.
Dividida entre questões pessoais e decisões pessoais, ela deixou de lado muito. Jogou para os ares muito, muito daqueles que eram então sua base. Aqueles que a escutavam e tinham sentimentos por ela. Muito mais fácil levar a vida sem se preocupar com os outros, apenas reclamando e recebendo a atenção. Ai de quem não der atenção...
Canso-me facilmente.
Contradizendo-se. Refletindo toda a vida sobre muito, chegando a lugar nenhum. Tento controlar minha dó. Tento compreender essas coisas da vida. Cada um sabe dos seus problemas, mas não vou livrar-te de ter culpa no cartório, culpa no final do algo “sólido” que por “água abaixo” fora.
Palmas ao egoísmo! Olá mundo atual! Olá individualismo! Foi um enorme nojo lhes conhecer.