Um grande amigo meu sempre teve uma perspectiva mais profunda em diversos assuntos. Nossa amizade se iniciou devido à uma conversa de filosofia estranhamente agradável. Ele se chama Leonardo Lorenzoni, futuro jornalista e para todo o sempre, um grande escritor.
"Essa história não é sobre a Segunda Guerra. Essa história não é sobre judeus lutadores ou Jesse Owens determinados. Essa história é sobre um Menino-frango e uma Menina-parede. E diferentemente do que você deve estar imaginando, quem narra essa história não é a morte. De certo modo sou a vida.
Não sei lhe dizer quando começou, ou quando foi, mas a Menina-parede se tornou a menina que rasgava livros. Simplesmente por prazer eu acho, simplesmente por gostar. Sendo proibido, a expectativa aumenta porque se corre o risco de ser pega. Ela não se importava. Rasgava páginas e mais páginas só pela diversão.
A noite era estranha. Um misto de quente e frio envolviam os dois. Em minha frente a Menina-parede e o Menino Frango conversavam.
O Significado de um nome
Ele se chamava Menino-frango
não porque gostava,
mas porque detestava
Ele estava mal. Ela não sei dizer, é muito enigmática para eu conseguir definir por completo numa análise simplória. Ela ria, cantava, dançava. Ele ficava quieto e a observava pensando em nunca deixá-la ir embora. Eles eram cúmplices de um crime perfeito, rasgavam as páginas e riam disso. Mas espera um pouco, crimes perfeitos não deixam suspeitos? Pois era exatamente o que eles eram, suspeitos. Suspeitos de carregar dentro deles um dos melhores sentimentos de todos: amizade. Mas não era só isso, ele carregava uma coisa que ela não tinha. Ela era uma coisa que ele nunca seria.
Eu vi ele pedir que ela prometesse uma coisa, ela não prometeu. Eu vi ele pensar uma coisa, ele não o fez. Eu vi os dois, nem que por um ínfimo momento serem felizes. Engraçado que não sei se devido à bebida ou à pura distração, ela não notou a minha essência, já ele, percebeu que eu não era mera espectadora na conversa. Abandonada num canto, eu estava empoeirada, esperando que me notassem, implorando para que me tocassem.
Quem sou eu
A máquina de escrever.
Nessa noite, ela fez algo importante que não percebeu. Ela acordou o lado romântico dele que há muito estava adormecido. E ali, sob a mesma promessa de por um anel naquele dedo, ele falou que me usaria para escrever os votos do casamento. Acho que ela não acreditou, acho que ela nunca vai acreditar. Ele falou a verdade. Acho que ela gosta muito dele, acho que quem sabe ela até o ama e não entendeu isso ainda, mas naquela noite ele era mais um para ela, e ela era a "uma" para ele. Terminou assim. E somente assim. Ela rasgando livros, ele querendo escrevê-los. Ela destruindo histórias, ele querendo contá-las. Ela sendo feliz, ele estando estranhamente triste. Ela viva, ele morto. Sou só uma máquina de escrever no canto de um boteco, não sou ninguém pra julgar alguém, mas acho que no final, a menina rasgadora de livros vai se arrepender de não ter feito a promessa, porque a única semelhança entre essa história e aquela do homem com o acordeão é que no final ele morre e ela chora. Ele morre de amor, morre de amizade, morre de tristeza, morre de viver. E assim, eu presenciei um dos melhores momentos da vida do Menino-frango, que coitado, não entende nada de crimes perfeitos, foi um péssimo suspeito, e foi considerado culpado por amar demais uma das suas três melhores amigas.
Uma última visão dos dois
Ela estava linda.
Ele estava feliz,
por um breve momento
mas estava."